Já não ia ao cinema há muito tempo. Nem me lembro da última vez que fui nem do filme que fui ver. Regressei ontem, um Domingo de manhã, para ver o filme Carros 2 com o meu filho mais velho.
Quase tudo mudou. Desde logo o preço. Agora paga-se 8,10 euros (!) por cada bilhete. Lembro-me de pagar 5,00 euros não há muito tempo atrás. À segunda-feira era até mais barato e haviam outras possibilidades de obter bilhetes a um preço mais em conta. O preçário foi 'actualizado'. É da praxe.
O filme escolhido é para ver em 3D, claro está. Agora o 3D Digital é que está a dar. Parece que é a coisa mais brilhante que já inventaram. Ver um filme de animação em 2D é coisa do passado. 3D já nem é o futuro, mas sim o presente (como eu estou a ficar... antigo!).
Uma coisa muito 'futurista', mas que é naturalmente deste 'presente', é ter de pagar 0,50 euros por cada par de óculos 3D e 2,00 euros de taxa de filme 3D. Coisa pouca... coisa pouca.
As contas são fáceis de fazer: 8,10 euros + 8,10 euros + 0,50 euros + 0,50 euros + 2,00 euros. O que vale é que estes tipos da Zon Lusomundo, benditos sejam, oferecem um cartão aos seus clientes, chamado myZONcard, e que tem a seguinte vantagem: "Pague 1 bilhete e leve 2 ou 1 menu de pipocas e bebida". É fantástico! Um cartão que andava aqui a fazer enchumaço na carteira e que valeu um desconto porreiro. Obrigado, Zon Lusomundo. O mundo sem vocês seria um tédio total.
As antigas bilheteiras, que eram ocupadas por empregados de todas as idades, foram desmanteladas. Agora temos de nos dirigir aos amplos balcões de venda situados à entrada do cinema. E lá vende-se tudo o que é preciso para o evento: os bilhetes, as pipocas, as bebidas, os aperitivos, os gelados, as gomas, os chocolates, as pastilhas, etc e coiso, tudo em práticos e económicos(?) menus ou em avulso.
Os funcionários não têm mais do que 20 anos. A mim calhou-me um imberbe arrogante:
"Quero uma embalagem de pipocas" pedi eu, depois de estar na fila cerca de 5 minutos. "O senhor não deseja escolher antes um dos nossos menus?" perguntou sem tirar os olhos do monitor. "Não, obrigado" respondi. "O senhor é que sabe" devolveu com ar um pouco ofendido e sem desviar os olhos do monitor. "Pacote pequeno, médio ou grande" prosseguiu, desta vez olhando para mim. "Pequeno" disse-lhe, tirando já da carteira os 2,95 euros que tinha a pagar. "Não deseja o pacote médio? São só mais 20 cêntimos". "Não, obrigado" respondi. "Eu é que sei..." acrescentei, antecipando-me a um eventual reparo daqueles mais inteligentes por parte do rapaz. E foi nesse preciso momento que pareceu-me ver um leve suspiro de impaciência no moço. Ou talvez um pequeno trejeito com a boca de insatisfação. Mas talvez eu tivesse ficado confundido com o barulho da música ou com o reflexo das luzes. Não interessa.
"Doces ou salgadas?" Consultado o puto, a opção escolhida foi "As salgadas" (a sede que aquilo me deu foi um martírio só aliviado no intervalo do filme).
A mítica frase "Obrigado e tenha um bom filme" não se ouviu da boca do moço e lá fui eu com o meu filhote para a fila de pais acompanhados de crianças de pouca idade. Os petizes vestiam t-shirts do Faísca Mcqueen. Apropriado.
A entrada na sala e a procura dos lugares a ocupar faz-se em modo 'self-service' algo que já sucedia amiúde no 'meu tempo'. Mas agora é em exclusividade. Aquele que era para mim um verdadeiro acontecimento digno de um serviço tipo Hotel Plaza e que consistia em chegar à sala e ser interpelado por um funcionário impecávelmente vestido que me pedia gentilmente o meu bilhete, que apontava para o dito cujo com uma lanterna pequena para verificar a fila e o nº do lugar, seguido do lendário "queira acompanhar-me, por favor", finalizando com a indicação do(s) lugar(es) respectívo(s) e com a repetida mas sempre apetecida frase "Tenha um bom filme" desapareceu por completo.
Posso acrescentar que durante todo o tempo que estive naquela sala não vi um único funcionário a prestar qualquer serviço aos utentes daquela sessão. Nem mesmo quando o começo da exibição dos anúncios e trailers de outros filmes foi atrasada em largos minutos (ao que se soube no final, por motivos de avaria temporária no projector), apareceu alguém para dar explicações. No fim da sessão lá apareceram duas senhoras da limpeza, colocadas à saída, com sacos do lixo pretos enormes nas mãos, a aguardar que os utentes depositassem ali os seus restos de pacotes e copos. Um nojo, portanto.
Ao nosso lado alguém se lembrou de comprar Nachos (às 10:50h da manhã?!) o que empestou a sala semi-vazia. Sim, a sala, ao contrário de outros tempos, não tinha mais do que meia centena de pessoas.
O preço deste luxo que é actualmente ir ao cinema, o bit-torrent e o emule devem ser algumas das explicações para tal facto. Uma sala vazia para ver um filme que gerou enorme expectativa e que tinha estreado há apenas 3 dias. Belos tempos, estes. Não haja dúvidas acerca disso!
No intervalo do filme ainda houve direito a uma surpresa: o última edição do semanário "Sol" estava a ser distribuída gratuitamente. Já tinha dois dias aquela edição (sai à sexta-feira), mas mesmo assim é de elogiar a oferta no valor de 3,00 euros. Domingo à tarde a leitura do jornal não se fez, mas isso também não interessa para o caso. O que interessa é a intenção...
Quanto ao filme em si: muito giro, muito tecnológico, muito frenético e agitado, mas muito diferente do primeiro filme Carros de 2006 (que eu considero uma obra-prima da animação). Em 5 anos muita coisa muda, de facto. Carros 2 pareceu-me um filme de miúdos com argumento para graúdos, com uma temática muito séria e actual. Duvido é que aquela miudagem de 4/5/6 anos que estava lá na sala a assistir ao filme tenha percebido a maior parte do que viu. Mas foi em 3D, caramba, o filme foi em 3D!
Home
Login
Twitter
Facebook
Email
RSS


5 Comentários: (+add yours?)
Que saudades dos cinemas com "arrumadores de pessoas"!
Agora nem que o filme tenha falhas aparece alguém....
Os 'arrumadores de pessoas' e os funcionários que estavam nas bilheteiras tinham mais idade. Eu ainda sou do tempo em que eles, perante a nossa indecisão quanto ao filme ou quanto à sessão a escolher, nos davam conselhos e dicas sobre os filmes.
Uma vez, na estreia mundial do 'Senhor dos Anéis - O Regresso do Rei', a senhora da bilheteira perante a minha indecisão entre ver o filme naquele dia da estreia (durante a semana) ou ver no fim-de-semana seguinte, disse-me: "Ah... não deixe de ir ver hoje o filme. Já viu o privilegio que é poder ver o fim da trilogia no mesmo dia que milhões de pessoas em todo o mundo? Já pensou nisso? Nunca mais se vai esquecer! Vá, compre os bilhetes para hoje."
E a verdade é que fui e nunca mais me esqueci desse dia :)
Este tipo de contacto com aquelas pessoas, muitas delas também amantes de cinema e não meros empregados, era impagável :)
Infelizmente há salas (cada vez mais a maioria) em que o cinema é negócio.
Os cinemas da Lusomundo então são um nojo. Não há respeito nenhum por quem vai ao cinema.
Como te compreendo e como me revejo em todas e cada uma das tuas palavras (excepto o filme que ainda nao vi, infelizmente...).
Tudo exectamente como descreves, e olha que na remodelada sala de Reguengos de Monsaraz as coisas nao vao sendo muito diferentes. Alias ando ha uns tempo a pensar escrever qualquer coisa sobre isso dos 3D, sobre essa porra dos 3D que agora parece indispensavel e inprescindivel..
Beijo
Mel: agora começo a perceber o choque que afectou a geração dos nossos pais...
Enviar um comentário