In Memoriam - Padre Filipe

Apesar de ter tido uma educação cristã, actualmente não sou praticante. Durante muitos anos não frequentei igrejas e discordei, como ainda discordo, de muitas das ideias da Religião Católica.

No entanto, por respeito ao legado familiar e ao esforço que tanto eu como a minha mulher fazemos no sentido de proporcionar uma boa educação aos nossos filhos, tomámos a decisão de inscrever o nosso filho mais velho na Catequese, para que ele pudesse ter acesso ao mesmo tipo de aprendizagem que tivemos e para que ele, tendo adquirido o conhecimento e o ensinamento cristão, pudesse escolher livremente o seu caminho, tal como nós. Por causa dele e por ele, voltei a frequentar a Igreja.

A vida em comum com a minha mulher foi construída tendo como base muitos desses alicerces cristãos e foi com naturalidade que o nosso matrimónio foi planeado por forma a ter uma cerimónia católica. O nosso casamento ocorreu no ano de 2001 e foi nessa altura que conhecemos o Padre Filipe Carreira do Rosário.

Tratava-se de um homem extraordinariamente invulgar, dotado de uma simpatia, de uma gentileza, de uma cordialidade e de uma amabilidade no trato verdadeiramente notáveis, o que me causou admiração e espanto logo nos primeiros momentos.

Junto dele eu sentia-me bem e em paz. Era impressionante a forma como ele falava connosco olhos nos olhos, sempre com um sorriso nos lábios, e nos lia os pensamentos. Lembro-me em particular de numa reunião que eu e a minha mulher tivemos com ele no Seminário da Luz, em Carnide, nas vésperas do nosso casamento, em que o Padre Filipe, no seu jeito intenso e na sua forma mais pura e generosa, nos aconselhou a viver uma vida com paixão, dedicados e empenhados, um para o outro, aceitando os nossos defeitos e exaltando as nossas virtudes. Lembro-me da forma especial como ele fez, sem nos conhecer, uma espécie de radiografia ao nosso íntimo, com uma invulgar capacidade de analisar e compreender outro ser humano. Naquela noite não falou connosco o Padre, mas sim o amigo. E aquilo marcou-me muito na altura...

A cerimónia realizou-se na Igreja da Luz e foi diferente. Recordo-me que ele arrancou muitos sorrisos a todos os presentes. Quem o conheceu bem e teve o privilégio de lidar com ele de perto sabe do que eu estou a falar (ver o testemunho de outra pessoa aqui). Foi, de facto, um momento especial.

Passados 2 anos, uma feliz coincidência proporcionou novamente o encontro com o Padre Filipe. Ao contrário do que era suposto, foi ele que realizou o baptismo do nosso primeiro filho. O mesmo local, o mesmo Padre, o mesmo jeito. Sempre "com muito amor", como ele gostava de referir.

E foi por tudo isto que, 8 anos depois, fizemos tudo o que estava ao nosso alcance para que a nossa segunda filha fosse baptizada por ele, na mesma Igreja. Seria a terceira cerimónia que o Padre Filipe celebraria junto da nossa família. Era o que mais desejávamos.

Infelizmente, no final do ano passado (2010) quando nos dirigimos à Igreja da Luz para iniciar o processo, foi-nos dito que o Padre Filipe tinha um cancro (em fase terminal) que teimosamente combatia da melhor forma que sabia e podia: continuando a sua actividade diariamente. Restava-lhe, no entanto e de acordo com os médicos, muito pouco tempo de vida.

E foi assim que encontramos o Padre Filipe. Muito doente, muito debilitado, mas com o mesmo sorriso nos lábios. No entanto, notei nos seus olhos o seu sofrimento. Mas também notei nele a força de vontade para continuar o seu caminho, que iria uma vez mais cruzar-se com o nosso...

Com a sua habitual simpatia, acedeu ao nosso pedido de celebrar o baptismo. A cerimónia ficou marcada para o mês seguinte (Janeiro de 2011), mas não deixou de nos alertar para uma terrível verdade: ele podia não estar presente e ter de ser outro Padre a fazer o baptismo da nossa filha.

Passadas umas semanas recebo um telefonema dele a marcar a reunião de preparação do baptismo, a realizar com os pais e os padrinhos, novamente no Seminário da Luz. Foi nessa altura que ele escreveu uma prece dedicada à nossa filha. Foi mais um momento especial que este homem proporcionou à minha família.

O cancro não venceu, naquela altura, a guerra, cujo desfecho era por todos conhecido. E o Padre Filipe celebrou em Janeiro deste ano de 2011 a cerimónia de baptismo da nossa filha. O nosso desejo cumpriu-se.

No final despedi-me dele sabendo que, muito provavelmente, seria a última vez que iria vê-lo vivo. Estava certo. É claro que estava certo...

O Padre Filipe Carreira do Rosário faleceu na tarde de 26 de Setembro de 2011, no Instituto Português de Oncologia, em Lisboa, aos 63 anos de idade (ler notícia aqui).

Este post vem com muitos dias de atraso. Soube somente na semana passada que o Padre Filipe tinha falecido e fiquei aliviado. Sim, fiquei aliviado por saber que o sofrimento daquele homem tinha finalmente chegado ao fim. Diz o texto, cujo link coloquei no parágrafo anterior, o seguinte: 
Nos seus últimos dias de vida, claramente marcados pelo sofrimento da enfermidade, não se lhe ouviram queixumes, antes dizia com o brilho próprio de um homem de fé em Cristo que tudo esperava unido ao seu Senhor. Tinha bem presente a palavra de Francisco, o seu Santo de Assis, «E rogo ao irmão enfermo, que por tudo dê graças ao Criador.» E por fim, no seu leito no Hospital, Frei Filipe Rosário disse, em jeito de despedida, «Levo-vos no coração!»

Sinto que fui de alguma forma tocado pela bondade deste homem e, apesar de não conter as lágrimas na altura que estou a escrever estas palavras, consigo ao mesmo tempo sorrir ao lembrar-me da cara deste homem que, infelizmente, eu não conheci profundamente. 

Sinto que, ao ter estado presente em três dos mais belos momentos da minha vida, este homem fez-me bem. Ele realizou o bem, porque era um homem de bem.

Sinto que lhe devo algo que não sei especificar muito bem e que nunca vou poder pagar-lhe. Ou talvez já tenha pago, pois a alegria que ele demonstrou quando esteve junto a nós naqueles momentos especiais, era tudo o que ele precisava para se sentir realizado.

Guardo em casa, com imensa satisfação, os DVD's contendo as cerimónias que este homem celebrou junto com a minha família. E sei que irei gostar ainda mais quando os for ver no futuro.

Descansa em paz, Padre Filipe.

Padre Filipe Carreira do Rosário



1948 - 2011

2 Comentários: (+add yours?)

Brown Eyes disse...

Paulo este é mais um dos teus textos profundos. Adoro ler este tipo de posts que publicas. As lágrimas espreitaram e senti a beleza da alma desse homem. A pureza pode estar em qualquer um de nós, não tem a ver com a nossa religião mas sim com a pureza da nossa alma. Todos nós tivemos oportunidade de nos aperfeiçoarmo-nos ao longo da vida, todos tivemos uma educação religiosa mas o que é certo é que muitos de nós nada aprendeu. Por este post podemos sentir a simplicidade e a bondade deste homem mas também a tua. Se assim não fosse não conseguirias escrever o que escreveste. Beijinhos

editor69 disse...

Sinto-me triste. :(